Livia Rosa Santana · Colunista Social

No Dia da Pessoa com Deficiência Física, trajetória dos jornalistas Fabio Almeida e Jacson Gonçalves reforça a importância da representatividade, da autonomia e de oportunidades reais nas empresas e na comunicação.
Por Livia Rosa Santana | Colaborador TOK
O capacitismo no trabalho continua sendo um desafio para empresas, lideranças e profissionais que desejam construir ambientes verdadeiramente inclusivos. A discussão ganha visibilidade no Dia da Pessoa com Deficiência Física, celebrado em 11 de outubro, mas exige atitudes durante todo o ano.
Mais do que eliminar obstáculos físicos, promover inclusão significa reconhecer competências, garantir acessibilidade e permitir que pessoas com deficiência participem das decisões que afetam suas vidas.
Essa reflexão também alcança o empreendedorismo e a comunicação. Afinal, contratar profissionais, desenvolver lideranças e construir uma marca responsável envolve a maneira como pessoas são tratadas, representadas e valorizadas.
Em Salvador, a experiência dos jornalistas Fabio Almeida e Jacson Gonçalves, responsáveis pelo portal Jack Comunica, oferece um exemplo da importância de ampliar a representatividade sem reduzir a pessoa à sua deficiência.
O que é capacitismo no trabalho?
O capacitismo é uma forma de discriminação baseada em ideias preconcebidas sobre pessoas com deficiência.
No ambiente profissional, ele pode aparecer quando alguém tem sua competência questionada sem justificativa, é excluído de oportunidades ou recebe um tratamento infantilizado por causa de sua condição física.
Também pode ocorrer quando uma empresa ignora necessidades de acessibilidade, impedindo que um profissional participe plenamente de atividades, treinamentos e processos de seleção.
Por isso, combater o capacitismo exige mais do que boa intenção. É necessário identificar barreiras e modificar práticas que geram desigualdade.
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência estabelece que pessoas com deficiência têm direito ao trabalho em ambientes acessíveis e inclusivos, em igualdade de oportunidades.
A legislação também proíbe discriminação em etapas como recrutamento, contratação, permanência no emprego e progressão profissional.
Jack Comunica: sete anos de jornalismo e representatividade
A experiência do Jack Comunica, portal sediado em Salvador, mostra como a comunicação pode contribuir para ampliar o debate sobre inclusão.
Idealizado por Fabio Almeida em parceria com Jacson Gonçalves, jornalista que utiliza cadeira de rodas, o projeto completou sete anos em outubro de 2026.
Ao longo dessa trajetória, a iniciativa desenvolveu uma atuação jornalística que também abre espaço para assuntos relacionados à acessibilidade, à diversidade e à participação social.
Para Fabio Almeida, a convivência profissional com Jacson ampliou sua compreensão sobre o tema.
“Ter Jacson ao meu lado nessa caminhada ampliou minha compreensão sobre inclusão, respeito e acessibilidade. Aprendi que comunicar não é apenas dar visibilidade às histórias, mas também abrir caminhos, romper preconceitos e valorizar as pessoas. O jornalismo também tem a responsabilidade de contribuir para uma sociedade mais justa e representativa”, afirma Fabio Almeida.
A declaração evidencia uma responsabilidade que vai além das redações. Empresas de diferentes setores também influenciam a maneira como a sociedade reconhece capacidades e oferece oportunidades.
O trabalho do projeto pode ser acompanhado no portal oficial Jack Comunica, que mantém uma seção dedicada à inclusão.
Pessoas com deficiência não precisam ser tratadas como heróis
Uma das formas mais comuns de capacitismo é transformar atividades cotidianas realizadas por pessoas com deficiência em demonstrações extraordinárias de superação.
Embora esse tipo de abordagem possa parecer elogioso, ele muitas vezes desloca a atenção das competências, escolhas e realizações profissionais da pessoa.
Para Jacson Gonçalves, o reconhecimento deve partir do respeito à sua individualidade.
“Eu não quero ser visto como um herói simplesmente por viver a minha vida. Quero ser respeitado como cidadão, como profissional e como ser humano.”
Essa perspectiva também vale para o ambiente de trabalho.
Um profissional com deficiência não precisa provar permanentemente que merece ocupar um espaço. Sua atuação deve ser reconhecida pelos mesmos critérios de competência, responsabilidade e desempenho aplicados aos demais.
Da mesma forma, oferecer condições de acessibilidade não significa conceder um privilégio. Significa permitir que diferentes profissionais exerçam seus direitos e participem em condições justas.
Inclusão e pertencimento: por que estar presente não basta?
Uma empresa pode contratar pessoas com deficiência e, ainda assim, manter um ambiente que dificulta sua participação.
Isso acontece quando existem barreiras de comunicação, ausência de adaptações necessárias ou decisões tomadas sem ouvir os profissionais diretamente envolvidos.
Nesse cenário, a diferença entre inclusão formal e pertencimento torna-se evidente.
“Eu não quero apenas ser incluído. Quero pertencer”, afirma Jacson Gonçalves.
A frase resume uma questão importante para lideranças e equipes: não basta permitir que uma pessoa entre em determinado ambiente. É preciso criar condições para que ela participe, contribua e seja respeitada.
O pertencimento envolve escuta, autonomia, oportunidades de desenvolvimento e relações profissionais que não sejam definidas por estereótipos.
Além disso, depende de uma cultura organizacional que reconheça diferentes necessidades sem reduzir ninguém à sua deficiência.
Como empresas podem combater o capacitismo?
A construção de um ambiente inclusivo precisa fazer parte da gestão cotidiana.
O primeiro passo é observar se existem barreiras nos processos seletivos, nos espaços físicos, nas plataformas digitais e nas atividades profissionais.
Depois, a organização deve ouvir as pessoas com deficiência para compreender necessidades de acessibilidade e adotar soluções adequadas a cada situação.
Também é importante garantir que treinamentos, reuniões, avaliações e oportunidades de promoção estejam disponíveis em condições de igualdade.
A legislação brasileira prevê acessibilidade, recursos de tecnologia assistiva e adaptações razoáveis como componentes da inclusão no trabalho.
Para quem lidera equipes, essas medidas representam responsabilidades práticas de gestão, e não apenas ações de comunicação institucional.
Esse compromisso se relaciona ao papel do empreendedorismo como instrumento de inclusão social e desenvolvimento econômico, tema já abordado pelo TOK.
Quando oportunidades são ampliadas de forma responsável, mais pessoas podem desenvolver suas competências e contribuir para os negócios e para a sociedade.
O papel da liderança na construção de ambientes acessíveis
Empresas inclusivas dependem de decisões consistentes de seus gestores.
Isso significa evitar julgamentos sobre a capacidade de alguém com base em sua deficiência e avaliar as condições necessárias para o exercício de cada atividade.
Também envolve preparar lideranças para lidar com diferentes demandas, sem infantilizar profissionais ou retirar sua autonomia.
Por outro lado, a responsabilidade não pode ficar concentrada na pessoa com deficiência, como se ela precisasse resolver sozinha todos os obstáculos encontrados.
A organização deve assumir seu papel na identificação e na redução das barreiras.
Assim, a inclusão passa a integrar a cultura da empresa e os processos de gestão de pessoas.
Empreendedorismo e autonomia profissional das pessoas com deficiência
A discussão sobre oportunidades não se limita ao emprego formal.
O empreendedorismo também pode ser um caminho profissional para pessoas com deficiência que desejam desenvolver negócios, prestar serviços ou atuar de maneira autônoma.
Entretanto, essa escolha precisa acontecer em condições reais de acesso a informação, tecnologia, capacitação, crédito e mercado.
O artigo 35 da Lei Brasileira de Inclusão determina que programas de estímulo ao empreendedorismo e ao trabalho autônomo também considerem a participação de pessoas com deficiência.
Isso inclui iniciativas ligadas ao cooperativismo e ao associativismo, com previsão de apoio e linhas de crédito quando necessárias.
Para o mercado, a reflexão é importante: oportunidades de negócios devem ser construídas com acessibilidade desde o planejamento, e não somente depois que uma dificuldade aparece.
Jornalismo inclusivo também combate estereótipos
A forma como a imprensa apresenta pessoas com deficiência influencia a percepção do público.
Quando uma reportagem associa deficiência apenas à limitação, ao sofrimento ou à superação, corre o risco de reforçar estereótipos.
Uma cobertura mais responsável reconhece a pessoa em sua totalidade, incluindo profissão, conhecimentos, opiniões, projetos e participação social.
Por isso, pessoas com deficiência devem ser ouvidas também em reportagens sobre negócios, empreendedorismo, economia, cultura, educação, tecnologia e mercado de trabalho.
Elas não precisam aparecer exclusivamente em matérias sobre acessibilidade.
Além disso, veículos de comunicação devem considerar a acessibilidade de seus próprios conteúdos, com práticas como descrição adequada de imagens, legendas em vídeos e organização clara das informações.
Essa discussão dialoga com o artigo do TOK sobre a construção de autoridade e confiança na comunicação de pequenos empreendedores. Uma marca ou veículo fortalece sua credibilidade quando existe coerência entre o discurso público e suas práticas.
Dia da Pessoa com Deficiência Física: inclusão precisa ser permanente
Celebrado em 11 de outubro, o Dia da Pessoa com Deficiência Física chama atenção para direitos que precisam ser respeitados ao longo de todo o ano.
Segundo o Ministério da Saúde, a data está ligada à mobilização pela cidadania, à acessibilidade e à valorização das pessoas com deficiência física.
Entretanto, conscientização sem mudanças concretas tem alcance limitado.
Para empresas, a reflexão deve resultar em ambientes acessíveis, processos profissionais justos e oportunidades de crescimento. Para o jornalismo, deve estimular uma representação que respeite a autonomia e a diversidade das experiências humanas.
A trajetória de Fabio Almeida e Jacson Gonçalves mostra a importância de construir esses espaços por meio do trabalho cotidiano.
Mais do que uma mensagem para uma data comemorativa, o combate ao capacitismo é um compromisso com a qualidade das relações profissionais e com uma sociedade em que as pessoas possam participar plenamente.
Perguntas frequentes sobre capacitismo e inclusão no trabalho
O que é capacitismo no trabalho?
É a discriminação baseada na deficiência, manifestada por preconceitos, exclusão, infantilização ou práticas que dificultam a participação e o desenvolvimento profissional.
Como combater o capacitismo dentro das empresas?
É necessário identificar barreiras, garantir acessibilidade, ouvir pessoas com deficiência e oferecer condições justas de contratação, capacitação, participação e crescimento profissional.
Qual é a diferença entre inclusão e pertencimento?
A inclusão envolve acesso e participação. O pertencimento acrescenta a experiência de ser respeitado, ouvido e reconhecido como parte efetiva de uma equipe ou organização.
O que a Lei Brasileira de Inclusão determina sobre trabalho?
A Lei nº 13.146/2015 assegura o direito ao trabalho em ambientes acessíveis e inclusivos e proíbe discriminação relacionada à deficiência em diferentes etapas da vida profissional.
Como o jornalismo pode combater o capacitismo?
O jornalismo pode ouvir diretamente pessoas com deficiência, evitar estereótipos, reconhecer suas competências e produzir conteúdos acessíveis sobre diferentes assuntos da sociedade.





